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quinta-feira, 9 de junho de 2022

A vida dos povos indígenas brasileiros

 Como era a vida dos povos indígenas brasileiros?

Cada povo indígena tinha seus próprios costumes e modos de vida quando os portugueses chegaram ao Brasil. Nesta reportagem, vamos mostrar como viviam os tupinambás, que habitavam toda a costa na época do Descobrimento. Era um povo que tinha como língua predominante o tupi-guarani – ao contrário do que muita gente pensa, é uma língua, e não um povo. Suas guerras eram uma atividade mais defensiva, e não uma maneira de conquistar territórios, como hoje.


TUPI OR NOT TUPI

Como era o cotidiano dos tupinambás, da comida aos animais domésticos

MESTRES DOS MARES

Além de lagos e rios, os tupinambás ficavam concentrados na área litorânea, o que facilitava o contato com o mar. Usavam longas canoas, não só para atividades de pesca, mas também para se aproximar das caravelas portuguesas na troca de mercadorias

LAVANDO A ALMA

Os tupis da costa se banhavam praticamente com a mesma frequência com que encaramos o chuveiro hoje – aliás, nossa higiene atual é herança indígena, não europeia. O contato com a água acontecia desde cedo – os rios eram locais de brincadeiras para as crianças. Até os prisioneiros que iam virar grelhado passavam por um banho cerimonial antes da execução

MODA INDÍGENA

As pinturas eram pretas (feitas com jenipapo) ou vermelhas (com urucum). Penas de aves eram usadas em cocares e em adornos que se pareciam com um rabo (característico dos tupinambás). As pinturas e os adornos tinham um significado especial na guerra e nos rituais de antropofagia – no dia-a-dia, os índios andavam pelados mesmo

COMES E BEBES

O “arroz com feijão” dos tupinambás era milho, carne de caça, pesca, frutas e tubérculos. As índias preparavam uma bebida especial fermentada à base de mandioca ou milho, chamada de cauim. A bebida era parte integrante das cerimônias (especialmente antropofágicas), em que os índios “enchiam a cara”! A embriaguez era considerada uma mostra de virilidade entre os homens

 

 

PET SHOP

Os tupinambás também tinham animais domésticos, chamados de xerimbabos (“minha coisa querida”, em tupi). Os animais serviam para embelezar, como as araras, os tucanos e até os periquitos, ou para mostrar respeito à natureza – filhotes de macacos, por exemplo, eram adotados pela aldeia caso sua família tivesse sido morta por caçadores

DOUTOR PAJÉ

A saúde dos tupinambás era apoiada em rituais de cura, manipulação de plantas medicinais e tratamento dos doentes. O pajé fazia as cerimônias auxiliado por índias idosas. O conhecimento de plantas medicinais era de domínio de ambos os sexos. Já o trato com os doentes (que geralmente ficavam isolados) era feito pelas mulheres

SAUDOSA MALOCA

A aldeia era rodeada por paliçadas, espécies de cercas de lanças, e cercas com crânios. Eles serviam como enfeites, para honrar os que viraram jantar. Uma aldeia tinha de quatro a oito malocas, que abrigavam pelo menos três núcleos familiares. Os pertences dos indivíduos eram mantidos na maloca dentro da área ocupada por sua família

CAÇA E GUERRA

As armas de guerra dos tupinambás incluíam a borduna, tacape que funcionava como um martelo. Os arcos e flechas eram “customizados”, trocando-se o desenho das pontas, a posição e o estilo das penas da flecha, além do tamanho e do formato dos arcos. Por exemplo, para caçar animais de pequeno porte (como aves terrestres), usava-se um arco de longa envergadura e uma flecha de material leve com penas longas na parte de trás (isso ajudava a sustentar mais tempo de voo)

TRABALHO DIVIDIDO

A divisão de tarefas dependia do sexo e da idade. As mulheres preparavam alimentos, faziam artefatos e outras atividades internas, enquanto os homens cuidavam da parte externa. Algumas das funções masculinas eram guerrear, caçar e fazer um social com outras aldeias. A sociedade era comandada pelos mais velhos, de quem partiam as decisões em relação ao grupo

CONSULTORIA – Dominique Tilkin Gallois e Renato Sztutman, professores do departamento de antropologia da FFLCH – USP.

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-era-a-vida-dos-povos-indigenas-brasileiros/

Curiosidades da Antiga Roma

 Curiosidades da Antiga Roma

 Abaixo estão algumas curiosidades sobre a vida cotidiana da Antiguidade Romana que descobri lendo o livro de um escritor paleontólogo italiano. Tantas delas foram herdadas pelos povos conquistados pelos romanos e existem até hoje.

 

1. Embelezamento: os romanos eram vaidosos e primavam pela boa aparência. Os homens criaram o hábito de se barbearem (com lâminas de ferro e a seco), uma obrigação sobretudo se eram soldados. Mas não faziam sozinhos; se eram ricos, possuíam um tonsor (barbeiro) particular que fazia o serviço em casa. Os menos favorecidos iam em barbearias públicas - algumas até a céu aberto - espalhadas pela cidade. As mulheres se embelezavam em casa com ajuda de uma serva, se eram ricas. Herdaram das egípcias as técnicas da maquilhagem (usavam até fuligem para pintar os olhos) e dos banhos aromáticos. O penteado variava segundo a moda ditada pelas esposas dos imperadores e chegavam até ser muito elaborados, como o das tranças que formavam um cone no alto da cabeça. Elas também tingiam os cabelos com hena, faziam apliques com cabelos importados da Índia e até depilação. 

 

2. Vestuário: a toga, usada sobre a túnica, servia para distinguir a classe social de quem a vestia através da cor, do volume e da forma e só podiam ser usadas por quem tinha a cidadania romana. Os escravos, plebeus pobres e soldados usavam só a túnica. As mulheres usavam, além da túnica e da toga, uma faixa sobre os seios (mammilia) e uma espécie de cueca (subligaculum) como roupa interior e um manto que cobria a cabeça quando saiam de casa. As crianças usavam a toga praetexta com uma faixa púrpura e quando cresciam, mudavam para a toga uirilis (os meninos) e a stola (as meninas que se casavam). As romanas também usavam um tipo de biquíni para praticar desporto ou relaxarem nas termas.

 

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Toga e pallio, o manto comprido que cobre a cabeça. As mulheres o usavam quando saiam de casa e os homens quando viajavam

 

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Toga romana masculina

 

Tunica romana, usada abaixo da toga ou sem nada por cima (no caso de plebeus pobres, escravos ou soldados)

 

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Os primeiros biquínis foram invenção dos romanos e não dos franceses. As mulheres retratadas aqui faziam ginástica usando esse traje de duas peças, mas também podiam ser usados para os banhos termais (mosaico de um antigo palacete romano de Piazza Armerina, província de Enna, Sicília)

 

3. Hábitos higiénicos: a higiene não era muito o forte naquela época, pelo menos do nosso ponto de vista. As mulheres estavam mais acostumadas ao banho em casa, enquanto que os homens preferiam as termas públicas. Os mais pobres tinham que se virar e tomavam banho como podiam. Para escovar os dentes, usavam uma mistura de bicarbonato de sódio, ervas aromáticas e até pó de pedra-pomes. Papel higiénico nem pensar! Cada um tinha uma esponja que era humedecida na água que corria em um pequeno canal localizado aos pés de cada vaso sanitário.

 

4. Lavandaria: os romanos lavavam as roupas de uma forma um tanto nojenta. Todo dia de manhã, o servo recolhia a urina de toda a família de seus patrões e a mandavam para a lavanderia, que seria usada para a limpeza das roupas. O cheiro forte era eliminado com água e essências naturais.

 

5. A casa romana: os patrícios e a plebe mais rica moravam nas domus, a residência urbana da Antiguidade. Essas habitações possuíam um grande atrium (átrio) cercado por colunas e ornado de jardins, pequenas hortas e de um impluvium, uma pequena cisterna pluvial, além de ser a principal fonte de luz solar da casa. O triclinium era o cômodo destinado aos jantares e banquetes, o tablinium era onde o patrono tratava de negócios e as cubicula (que eram mesmo cubículos) o local de repouso noturno, escuro e sem muita decoração ou mobílias. Também havia cozinha e banheiro. Apesar de todo o luxo e ricas decorações dessas domus, as janelas eram escassas e sempre pequenas, quase inexistentes (por motivos de segurança e privacidade). Os mais pobres moravam nas insulae, prédios "condominiais" com vários andares que depois  passou a ser também residência dos mais abastados quando começou a crescer o índice demográfico de Roma (era uma das cidades mais populosas da Antiguidade). Nesse caso, os andares de baixo eram os mais caros e os mais altos os mais baratos, ao contrário de hoje; quem morava mais embaixo podia fugir com mais facilidade em caso de incêndio (que eram muito comuns naquela época). 

 

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Toilettes públicas da Antiguidade Romana. Como se pode ver, não havia privacidade e os homens faziam suas necessidades conversando com outros homens tranquilamente e sem pudor. Aos pés de cada sanitário havia um canal por onde corria a água que servia para umedecer a esponja e se limpar depois do "social"

 

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6. Escola: até os 7 anos, a criança era educada pelo próprio pai, que lhe ensinava moral, noções rudimentares de escrita e história dos personagens ilustres. Depois dos sete anos, a criança (de família rica) passava a ser educada por um tutor, geralmente um escravo grego (a civilização grega era muito mais progredida culturalmente que a romana) liberto, que lhe dava noções de aritmética, escrita e leitura. Os menos favorecidos e até alguns ricos mandavam seus filhos às escolas públicas (e a céu aberto), onde também aprendiam a ler, a escrever e a fazer contas. Um fato interessante é que a leitura naquela época era em voz alta; somente na Idade Média, com os monges copistas, aprendemos a ler mentalmente.

 

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Auto-relevo de uma cena escolar

 

7. Vida social: as ruas de Roma eram muito movimentadas durante o dia. Era um vai e vem de pessoas de todas as classes sociais que se misturavam ao caos do comércio, quase uma Vinte e Cinco de Março (rua do centro de São Paulo famosa por seu grande comércio) em época de Natal. À noite não era aconselhado sair de casa pelo risco de assaltos e assassinatos, devido ao policiamento praticamente inexistente. O ponto de encontro dos romanos eram as termas, divididas entre masculinas e femininas, locais de relax, prática de desportos e vida social. Em alternativa, havia os bares, frequentados exclusivamente por homens, que também serviam de restaurante e "outros fins". Um lugar bem insólito para a socialização dos homens romanos era nos banheiros públicos; sentados em um banco conjunto sem divisórias, discutiam sobre diversos assuntos enquanto faziam o número 2.


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Ruínas das Termas de Caracalla

 

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Um bar-restaurante da Antiguidade Romana


 

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Toilettes públicas da Antiguidade Romana. Como se pode ver, não havia privacidade e os homens faziam suas necessidades conversando com outros homens tranquilamente e sem pudor. Aos pés de cada sanitário havia um canal por onde corria a água que servia para umedecer a esponja e se limpar depois do "social"

 

8. Engenharia civil: os romanos eram hábeis engenheiros. Devemos a eles a construção de pontes, aquedutos e estradas, que foram por muito tempo uma importante via de comunicação com outras colónias do Império Romano (a mais famosa é a Via Appia, que ligava Roma a Brindisi, no sul da Itália).

 

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Antiga Via Appia que ligava Roma a região da Puglia , no sudeste da Itália

http://bloglanostraitalia.blogspot.pt/2010/11/curiosidades-da-antiga-roma.html

 

Higiene e beleza no antigo Egito

 

Egito antigo

Bastante vaidosas que eram, as mulheres egípcias dispunham de vários apetrechos para cuidarem de sua higiene e beleza. Os escrínios de toucador continham os mais belos recipientes e pequenos frascos de perfume que possam existir, em madeiras preciosas provenientes sobretudo da Núbia e do Sudão, em marfim, em vidros multicores e translúcidos e, às vezes, até transparentes.


Tanto para as mulheres quanto para os homens, os cuidados de higiene com o corpo, pelo menos entre as classes mais altas da sociedade egípcia, desempenhavam importante papel. Ao que parece, até a ducha já era conhecida: utilizava-se para tanto uma peneira ou uma cesta. É claro que o mais comum era que se tomasse banho no Nilo, mas as residências refinadas dispunham de um banheiro reservado com privada.

Higiene e Beleza no Antigo Egito


Nos palácios reais do Império Antigo a presença das salas de banho está confirmada pela existência do título da função de diretor da sala de banhos. Para se lavarem, os egípcios usavam uma bacia e um jarro provido de bico, no qual colocavam a água. Ao lavarem os dentes, desinfetavam a água com uma espécie de sal. Usavam ainda uma pasta solidificada contendo uma substância desengordurante como, por exemplo, cinza, que levantava espuma quando esfregada. (…)

Os homens utilizavam com frequência os serviços profissionais dos BARBEIRO barbeiros, pedicuros e mani-curas, enquanto que as mulheres não dispen-savam o cabeleireiro. Os barbeiros usavam uma navalha de barba que, durante o Império Novo, consistia de uma pequena peça chata de metal com formato não muito diferente de um machado em miniatura e com bordas cortantes, a qual era fixada em um cabo curvo de madeira e girava entre os dedos do profissional. (…)

Higiene e Beleza no Antigo Egito


Além das roupas e dos cosméticos, os penteados e os adereços tinham igualmente um papel marcante na aparência da mulher egípcia. A peruca, sobretudo a título de elemento componente da vestimenta dos funcionários ou do círculo da corte, tinha uma importância particular. Os dois tipos principais de penteados artificiais masculinos eram a peruca de pequenos cachos e a peruca com longas mechas de cabelo caindo do crânio até os ombros. Na XVIII dinastia a moda fez nascer uma nova forma de peruca misturando pequenos cachos e mechas lisas

Higiene e Beleza no Antigo Egito


http://www.fashionbubbles.com/historia-da-moda/higiene-e-beleza-no-antigo-egito/

Pães e legumes na idade média

 Pães, legumes, frutas, hortaliças e carnes: no âmago da boa dieta

Feitas as considerações acerca do melhor ar, dos exercícios físicos, dos banhos e até das relações sexuais, chegamos ao que parece ser o núcleo dessa fonte medieval: a boa dieta. Conforme dissemos, a alimentação tinha um importante papel na manutenção da compleição física (ou temperamento). O equilíbrio entre os humores e, portanto, entre os alimentos consumidos, era essencial. Arnau de Vilanova, nesse sentido, reflete em seu tratado os anseios pela moderação apregoados desde a Antiguidade Clássica com os quais se rompeu, abruptamente, quando das invasões bárbaras do início do Medievo. A gulodice, muito comum entre os reis medievais, era um comportamento tipicamente pagão com o qual se preocupava a Igreja. E também os médicos.

As recomendações de Vilanova sobre a dieta são bem simples: nos onze capítulos em que é tratada, a abordagem se resume a indicar os alimentos mais adequados para se alcançar o temperamento do corpo, além de alguns comentários sobre suas propriedades e a melhor maneira de consumi-los.

O primeiro grupo alimentar a ser apresentado é o dos que nutrem o organismo (VIII). Chamá-los-íamos, hoje, de carboidratos. Deixaremos a análise desse capítulo, contudo, para outra oportunidade. O tratamento do segundo, o dos legumes (IX), é iniciado por uma frase algo controversa:

“Legums no són covinentz a corses atempratz dementre los corses són sans”.
“Legumes não são convenientes a corpos temperados enquanto são sadios”.

Parece-nos, sem dúvida, uma curiosa recomendação. Entretanto, somos logo providos pelos esclarecimentos de Miquel Batllori (1909-2003), que atenta para o fato de que as leguminosas eram prejudiciais à compleição de Jaime II, com exceção dos feijões e dos grãos-de-bico (IX.1, IX.2 e IX.3). Passamos, em seguida, ao mais extenso capítulo das Regras, o décimo, que aborda as frutas e a melhor forma de ingeri-las.

Em uma exaustiva demonstração de conhecimento sobre elas, Arnau elenca 45 tópicos para descrever os benefícios (e danos) das frutas, além dos elementos mais caros à saúde presentes nas comumente consumidas pelo rei. Pêssegos, damascos, melões, melancias, pinhões, avelãs, uvas, peras, castanhas, tâmaras. Cozidas, secas, frescas, confeitadas. Elas também deveriam ser consumidas de acordo com a estação:

  “Per tal, donques, con en l’estiu la sanc per calor del àer és enflamada, e en estiu e en autumpne per la sequetat del àer, qui és aguda, convén-se en los ditz temps usar fruytes fredes e humides a atemprar la sanch.”
  “Aytambén, per ço cor per la calor del estiu los membres del cors són rarificatz e esclareïtz, e pus tost la calor natural e∙ls espiritz ixen dels membres, lavors covén usar fruytes atempradament estrenyén los pors de la carn, axí con són fruytes ∙I∙ poc àrrees. Aytanbén, en los ditz temps, és bon usar fruytes agres, a trencar la agudea de les còleres.”
  “Sequetat, encara, del temps, la qual moltes veguades constipa e restreny lo ventre, requer que sovín en estiu e en autumpne ús hom les dites fruytes.”

“Por isso, como no verão o sangue se inflama graças ao calor do ar, e no verão e no outono são muito secos, convém que sejam consumidas frutas frias e úmidas para temperar o sangue.”

“Do mesmo modo, como no calor do verão os membros dos corpos emagrecem e empalidecem, e o calor natural e os espíritos mais rapidamente saem deles, convém consumir frutas moderadamente para que os poros da carne sejam obstruídos, como frutas um pouco constringentes. Também nesses períodos é bom consumir frutas ácidas para quebrar a agudez das cóleras.”

“A secura do tempo, que muitas vezes constipa e restringe o ventre, requer que, constantemente, no verão e no outono, tais frutas sejam consumidas” (X.2).

Ameixas não devem ser comidas com cerejas (X.7), nem figos com uvas (X.8). Pêssegos devem ser consumidos por aqueles que têm o fígado quente e seco (ou seja, por coléricos), figos são bons para homens jovens por sua acidez (X.15), pepinos e melões são bons antes do jantar (para atenuar o ardor do sangue) (X.19), frutas adstringentes nunca devem ser ingeridas cruas (X.27), peras são mais aconselháveis no verão e no outono (por seu sumo) (X.31) e castanhas e tâmaras, por serem doces, não serem sumosas e terem alguma adstringência, são melhores no inverno e na primavera (X.32).

Essa imensidão frutífera era parte fundamental da farta, porém saudável, dieta do soberano de Aragão. Um aspecto interessante das recomendações de Vilanova era a preocupação se determinados alimentos e sobretudo frutas, causavam ou não prisão de ventre. É possível que isso se deva às diagnosticadas hemorroidas do rei, visto que um intestino solto é não só prejudicial, mas extremamente doloroso para quem sofre de tal doença!

A obra trata ainda das hortaliças, raízes (cebola, couve, rabanete, cenoura e chirívia), carnes, derivados do leite, peixes (liguados, esturjões, baleias, atuns), condimentos (mostarda, rúcula, mel, açúcar, pólvora [!], salsa, sarmento), regras para se beber e, por fim, conselhos para mitigar as hemorroidas.

Por isso, desculpamo-nos com nossos leitores e ouvintes, já que a exiguidade do tempo dessa palestra, a extensão do tema e a riqueza temática da obra não permitem que façamos uma abordagem mais aprofundada de toda a fonte. Queremos destacar, contudo, a riqueza gastronômica das mesas medievais. Um tratado como o de Arnau de Vilanova evidencia que, ao contrário do que apregoam muitos que desconhecem esse período, comia-se muito bem na Idade Média.

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III de Foix-Bearne, Phoebus (1331-1391). Paris, BNF, ms. francês 616, folio 67.A abundância da mesa na Idade Média. Livre de la chasse (Livro da caça), início do séc. XV, de Gastão

As pesquisas mais recentes revelam que esse panorama, devidamente nuançado, é claro, podia ser observado da base ao topo da sociedade. Os camponeses, muito próximos daquilo que produziam nos campos, tinham nos pães, nas frutas, hortaliças e peixes o âmago de sua dieta. As cortes reais da Europa ocidental, à medida que avançavam em seu processo civilizador, substituíram, paulatinamente, as gordas carnes de caça a que estavam habituadas por esses alimentos mais leves. A “desbarbarização” desses entourages nobiliárquicos, portanto, foi também manifesta em seus hábitos alimentares: a diversificação dos alimentos e o refinamento dos pratos consumidos aparecem na documentação como fatos incontestáveis. Uma sociedade que, definitivamente, alimentava-se melhor que nos séculos passados, embora a busca pelo requinte já anunciasse na própria gastronomia sinais de uma clivagem social entre a nobreza e as camadas mais modestas.

https://www.ricardocosta.com

A higiene pessoal no Egito e Grécia na antiguidade.

 A higiene pessoal

 

O ato de banhar-se é bastante antigo, e engana-se aquele em pensar que a preocupação com a higiene seja algo dos tempos modernos. Desde a Antiguidade encontramos em distintos povos, suas maneiras de se entender a preocupação em manter o corpo limpo e até mesmo o lar. No Egito Antigo, em certos períodos, as pessoas tinham o hábito de tomar banho diariamente e três vezes ao dia. Grande parte dos homens mantinham as cabeças raspadas e a barba sempre feita, para se evitar piolhos, além de ser uma questão estética; até mesmo as mulheres chegavam a raspar a cabeça ou manter os cabelos bem curtos, daí o uso de perucas pelos ricos. O banho era visto como algo sagrado, chegando a haver até mesmo ritos para se banhar, pois o banho era visto como uma forma de purificar o corpo. De fato, ainda hoje algumas religiões e crenças preservam essa ideia de banhos purificadores. 

 

Os gregos antigos também já mostravam preocupação em manter os corpos limpos. Eles também tomavam banho diariamente, usavam óleos para passar no corpo a fim de prender a sujeira, e depois usavam um instrumento para raspar o óleo. Usavam também óleos perfumados após o banho. Os homens não tinham o hábito de fazer a barba ou raspar a cabeça, pois era algo estético da cultura deles: a barba era um sinal de masculinidade, virilidade e respeito. No caso das mulheres, elas naquele tempo já esboçavam a preocupação de depilar o corpo. 

 

Os romanos antes de serem influenciados pela cultura grega já demonstravam o hábito de banhar-se e a preocupação com a higiene. Eles usavam o estrígil ou estrigilo (strigilis), um pequeno raspador de cobre ou bronze em formato curvo ou de foice, usado para raspar a sujeira do corpo. Os gregos já usavam tal instrumento, assim como os etruscos. Normalmente passava-se azeite, para fixar a sujeira do corpo junto com o suor, e na hora do banho isso facilitava a camada de sujeira ser removida, pois estes povos não conheciam o sabão. 

 


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Pintura grega retratando um homem usando o estrígil para se lavar. 


Além do estrígil, havia lâminas usadas para fazer a barba e para a depilação; pinças para arrancar os pelos, lixas para as unhas, um instrumento para limpar as unhas, um instrumento para limpar os ouvidos; cera ou óleo para a depilação, óleos perfumados (o perfume é uma invenção tardia) usados após o banho; sais de banho, etc.


Além da limpeza corporal, os romanos como outros povos antigos também demonstravam preocupação em se limpar os dentes. A escova de dentes não existia propriamente, mas havia alternativas, como um tubo de madeira usado para ser mastigado, além de pastas que serviam como creme dental, onde a pessoa a esfregava nos dentes, depois fazia bochecho e cuspia. Geralmente os patrícios era que davam mais atenção aos dentes, pois os pobres não tinham esse hábito ou dinheiro para comprar tais produtos de higiene bucal.

 

Os ricos possuíam em suas casas (domus), banheiras, que eram a peça central de seus balneum oubalineum, ou seja, seus banheiros, embora houvesse outros nomes para designar o banheiro na história romana. A palavra balneum derivada do grego balaneion, deu origem as palavras balneário e banho. Enquanto os ricos tomavam banho em banheiras, sendo lavados pelos seus escravos (algo comum entre outros povos), os pobres quando tomavam banho, usavam baldes para isso, pois banhar-se nas fontes públicas era proibido.


E outro detalhe a mencionar é que nas insulas não havia abastecimento de água, e quando havia, era restrito apenas ao térreo, obrigando as pessoas desceram para ir buscar água no térreo ou ter que ir até uma fonte pública para pegar água. Já na casa dos ricos poderia ter um poço, mas em geral tinham um reservatório (impluvium) que coletava água da chuva, além de possuir em alguns casos, abastecimento de água e esgoto, pois dependia da localidade da casa.  

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Representação genérica de uma domus romana. 

Além do hábito de ter banheiros em casa, e de tomar banho com frequência, o governo romano preocupado com a limpeza da cidade começou a criar banheiros públicos não para tomar banho, mas para poder urinar e defecar. Foi no período republicano (509-27 a.C) que surgiram os banheiros públicos ou latrinae. A latrina pública era um local onde se encontrava uma bancada de pedra com vários buracos, onde as pessoas usavam para urinar ou defecar. Sob essas bancadas corria água que levava os dejetos para o sistema de esgoto. 

 


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Latrina pública em uma cidade romana. 

 

Latrina romana


Os banheiros já eram separados naquela época, havendo banheiros para os homens e banheiros para as mulheres. Contudo, não existia privacidade como se pode ver bem na imagem acima. Os homens e as mulheres faziam suas necessidades na frente de outras pessoas e até aproveitavam para ficar conversando. Nestes banheiros havia escravos ou escravas para cuidar da limpeza (embora fossem locais fedorentos e sujos), como também o escravo fornecia aos usuários uma esponja (era uma esponja marinha) em um cabo, a qual era usada para se limpar após ter defecado. O problema é que essa esponja não era descartável; após o seu uso, o escravo a limpava em uma bacia ou pia, e entregava para o próximo usuário. Quando a esponja estivesse desgastada ela era descartada. 

 

Em alguns bairros pobres onde não havia banheiros públicos, as pessoas ou urinavam e defecavam no mato, ou em terrenos baldios, becos, ou faziam em baldes e jogavam os dejetos na rua, pois as casas não tinham esgoto. Embora os banheiros públicos não fossem tão limpos, foram uma grande inovação para se manter a cidade limpa, pelo menos neste quesito. Nas insula, em geral só havia banheiros no térreo, sendo um banheiro coletivo para todo o prédio, pois nos apartamentos não havia banheiros.

 

Mas foi apenas na época imperial que os banhos públicos começaram a ser construídos, antes disso, os romanos tomavam banho em casa, ou nos rios e lagos, em alguns casos, o banho era simples. Embora os banhos públicos tenham atraído um número grande de pessoas para seus recintos, isso não significa que as pessoas deixaram de tomar banho em casa, contudo, tornou o banho algo regular e até diário, pois entre alguns não havia o hábito de banhar-se diariamente.

 


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